sábado, 25 de setembro de 2010

Eu menti pra você!


O título do albúm de estreia de Karina Buhr antecipa ao ouvinte sobre qual estilo musical estará por vir, todos e quase nenhum. A espera do primeiro trabalho sólo da cantora, depois de uma década na liderança do Comadre Fulozinha, já reservava uma expectativa que remetesse ao regionalismo pernambucano ou à multiplicidade eletrônica presente em inúmeros trabalhos da recente cena brasileira. Mas não foi bem assim, pois como ela mesmo disse,  "Eu sou uma pessoa má, eu menti pra você!", que até mentindo o ouvinte acredita.

"Eu menti pra você" engana o público do começo ao fim, como se ouvíssemos uma programação de uma rádio FM durante uma viagem de carro. Mas como? O trabalho da cantora, totalmente autoral e sem preconceitos invade os ouvidos com representações de guerra -  "Nassíria e Najaf", despretensão e preguiça reggae com "Plástico Bolha", "O pé" - uma canção orgânica e bem poética, "Vira Pó", que em levada samba explica a origem da vida,  "Telekphonen" - uma pertubadora conversa em alemão ao telefone  e a notória "Ciranda do Incentivo", praticamente um funk carioca sobre as fragilidades da lei de incentivo à cultura.

Se o artista é ou não um fingidor, preferimos que Karina Buhr continue mentindo com toda essa destreza. Um tiro no escuro que na gravidade de "Mira ira" deixa evidente o cansaço a um amor falido, uma descrença ao romantismo e à monotonia dos relacionamentos.

Ouvindo Karina Buhr nesse trabalho sólo, o ouvinte é acometido por sustos constantes, os reflexos parecem não acompanhar a inconstância de estilos, percussão e expressividade vocal, como acontece em "Soldat", um pós punk com a potência de trompetes, sim, um pós punk num vocal quase juvenil.

"Bem vinda" já pede uma tranquilidade de pôr-do- sol com a brisa do mar, em baterias leves e um aconchego nos cabelos esvoaçantes. Talvez seja essa capacidade da cantora de construir belos quadros, ora graves, ora óbvios, que acabam por garantir a simpatia gratuita ao trabalho de Karina Buhr.

Em parceria com Guizado, trompetista que em 2010 também lançou seu primeiro albúm, "Eu menti pra você" se firma nos trompetes de Jazz e nas bases eletrônicas com um desenho desconcertante em treze faixas.

Sob a liderança de Karina Buhr, a banda Comadre Fulozinha tem como marca principal os ritmos populares do nordeste como maracatu, côco e samba, mas que estiveram longe de "Eu menti pra você", talvez seja por isso a mentira confessada, uma grande surpresa para o público. Formada somente por mulheres, a banda continua na estrada sem limitar as carreiras pessoais das integrantes.

A cantora conseguiu romper as próprias limitações estéticas se lançando num trabalho autoral,  resultando neste presente à música popular brasileira. Estas canções mentirosas e envolventes num sotaque pernambucano tornam esta cantora ainda mais singular. Talvez estejamos diante da mentira mais bem contada de 2010.





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